Baile Oitocentista do Cerco de Almeida 2026: “Do Salão até à Praça”
Os bailes de inícios de oitocentos em Portugal inserem-se num período de fortes mudanças socioculturais. Há o crescimento do número de executantes musicais e de instrumentos disponíveis; festas e bailes onde eram executadas as grandes danças de grupo, como as contradanças, e se apresentavam peças fortemente influenciadas pela escrita operática.
É, porém, nalguns dos conteúdos e nas tipologias dessas festas e bailes que os salões portugueses se distinguem do restante europeu, com o culto prolífico das canções/cançonetas de matriz mais sentimental; e com a utilização de elementos culturais fortemente influenciados pelos contactos com os povos africanos; (...)
Contam-se às centenas as publicações, os jornais de modinhas, os milhares de modinhas em fontes manuscritas que chegaram até nós, tanto em Portugal como no Brasil —, onde se misturam elementos musicais da ópera italiana, práticas musicais populares mais ligadas à vida no campo, ritmos africanos e brasileiros, e também elementos dramáticos de teatro musical. (...)
O sucesso destas canções foi tão significativo que os próprios compositores italianos que passaram na época por Portugal se sentiram compelidos a experimentar este “caldeirão que é o género musical da modinha”, como é o exemplo que se apresentou no baile deste ano da moda para soprano Se tu m'ami se sospiri, em que o acompanhamento nos transporta inevitavelmente para o universo que conhecemos do fado lisboeta. (...)
Em 2026, o alinhamento do baile iniciou-se com a já tradicional polonaise, dança muito em voga desde inícios do século dezoito, da autoria de Johann Nepomuk Hummel (1778–1837); seguiu-se um pot-pourri de danças europeias da época de carácter diverso, intercaladas pelas modinhas semi-encenadas, vindo o baile a culminar na contradança mandada, verdadeira apoteose de uma festa dedicada à dança de inícios de oitocentos, que ilustra o percurso migratório das danças, desde o salão até à rua, isto é, até ao povo.
Assegurando o suporte musical do baile, o Concerto Ibérico reuniu para este projeto dois cantores solistas, que protagonizaram as peças cantadas, e um agrupamento instrumental marcado pela utilização de instrumentos de corda beliscada, como é o caso do cravo, da guitarra portuguesa e da guitarra barroca, além da flauta e do violino, como instrumentos melódicos agudos, e do fagote e do contrabaixo, que asseguraram o suporte grave do agrupamento.
O acompanhamento musical foi assegurado pelo Concerto Ibérico, composto por Carolina André (soprano), Eduardo Portugal (barítono), Filipa Oliveira (flauta), Luís Peres (violino), Vasco Cruz (guitarra portuguesa), Pedro Martins (guitarra barroca), Hugues Kesteman (fagote), Maria Delmar (contrabaixo) e João Janeiro (cravo e direção).
Referência da imagem:
Quadrilles. Third set, c. 1810–1820. Gravura colorida atribuída a Robert Cruikshank. Coleção da The New York Public Library, Jerome Robbins Dance Division.



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